Gabela: a beleza selvagem de uma antiga rainha Guias

Gabela - Kwanza Sul
 08/04/2019

Texto: Pedro Correia
Fotografia: Vasco Célio

Este artigo foi publicado na edição Dezembro-Janeiro 2016 da Revista Rotas & Sabores, parceiro de mídia do Luanda Nightlife. Leia a revista na sua íntegra aqui.

A viagem é agradável. De Luanda à Gabela são cerca de 400 quilómetros e, porque só pode ser feita por estradas que já conheceram melhores dias, em média dura seis horas. Em Porto Amboim, a pouco mais de metade do percurso, fazemos a pausa para o almoço. Seguimos caminho em direcção ao Sumbe e viramos à esquerda no desvio que surge 50 quilómetros depois, logo a seguir ao Instituto Nacional de Petróleos.

Antes de chegar à Gabela, ao quilómetro 27 da estrada que liga o Instituto Nacional de Petróleos à sede do município do Amboim, desfrutamos de um dos grandes espectáculos da natureza naquela região, proporcionado pelas águas do rio Keve que, mais à frente, nas cachoeiras do Binga, se precipitam do alto de 150 metros para um mar de espuma que abre caminho por entre o verde da paisagem. Mas a Gabela fica ainda a cerca de 50 quilómetros percorridos por entre montes e vales verdejantes numa paisagem deslumbrante interrompida aqui e ali pelo cinza de enormes montanhas de pedra e de impressionantes aglomerados de rochas.

E ao chegar, do cimo da montanha sobranceira, vemos a Gabela espraiar-se pela garganta que a divide ao meio em vales paralelos sarapintados do verde das árvores e do laranja-acastanhado das paredes das casas construídas em blocos de barro. Ao longe, a parte alta da vila guarda os edifícios mais antigos herdados da obra colonial com a vigilância afastada de duas grandes serras de pedra cinza.

A Gabela foi, até aos anos 70, uma das mais prósperas terras de café. Um longo conflito armado depois e quase meio século passado, podemos voltar a percorrer os cafezais e os campos agrícolas onde renascem as culturas do milho, batata e batata-doce, feijão e ginguba (amendoim). Ao percorrermos os caminhos para chegar à Gabela, o cheiro da fruta chega-nos da beira da estrada. Pequenos mercados florescem coloridos em bancadas improvisadas onde se amontoam sorrisos e pregões para vender a melhor banana, o ananás mais perfumado, a laranja mais colorida e a maçã mais bonita.

Já abastecidos de fruta, subimos primeiro ao verdejante Morro do Cruzeiro, bem no centro da vila, para visitar as ruínas do velho fortim da Gabela (Séc. XIX), apreciamos depois a vista sobre uma parte da vila, no Morro da Cruz, antigo local de culto católico onde existe uma capela e a Cruz de Cristo e, finalmente, visitamos o Morro de Santo António, outro local de culto católico que guarda o Santo e onde está em construção uma igreja. Por uma escada escavada na rocha, subimos o morro para desfrutar de uma vista única, uma vista panorâmica, de 360º, sobre a nova e a velha Gabela e seus arredores espectaculares. Ao longe está outro ponto de interesse que vistamos a seguir.

A Fazenda C.A.D.A

É a cerca de sete quilómetros do centro da vila que está a Boa Entrada, um povoado em crescimento em torno da antiga fazenda da Companhia Angolana de Agricultura (CADA). Foi no início da década de 70 que a fazenda viveu os seus melhores anos com uma grande produção de café que arrebatou prémios pelo mundo. Além do café, a CADA aglomerava dezenas de pequenas fazendas agrícolas com uma importante produção de algodão, sisal, banana e de muitos outros frutos, assim como de todo o tipo de hortícolas. A organização da grande fazenda incluía escolas, um hospital, igreja, casas de vários tipos para os funcionários e até mesmo um ramal do Caminho de Ferro de Benguela que ficou conhecido com o nome de Caminho de Ferro do Amboim. Esta linha começou a ser construída em 1914 sob iniciativa dos fazendeiros da CADA. A ligação com Porto Amboim, de pouco mais de 100 quilómetros, ficou concluída em 1931 com o propósito principal de escoar a produção de café, sisal e algodão.


A linha do caminho-de-ferro há muito que deixou de estar operacional mas ainda hoje existe, à entrada da CADA, o edifício da estação do Amboim que está ao abandono. Durante os vários anos de conflito armado, naquela zona, a CADA esteve isolada do mundo e a degradar-se. Actualmente, e depois de reabilitados alguns edifícios, estão em funcionamento o hospital e a escola principal, a igreja e vários serviços administrativos. As casas antes destinadas aos trabalhadores da antiga fazenda são agora o lar de muitas famílias que decidiram repovoar a região e retomar pequenas produções agrícolas de subsistência. Toda a vasta área da fazenda e arredores pode ser visitada.

Tome nota

Como ir

Não há ligações aéreas. A estrada é a única forma de se chegar à Gabela numa viagem de cerca de 400 quilómetros percorridos, em média, em pouco mais de 6 horas. Para chegar à Gabela, com partida de Luanda, deve seguir em direcção à Barra do Kwanza e apanhar a Estrada Nacional 100 que liga a Benguela. Cerca de 15 quilómetros antes da cidade do Sumbe, e junto ao Instituto Nacional de Petróleos, vire à esquerda e ainda mais 77 quilómetros para chegar à sede do município do Amboim.

Onde ficar:

O Hotel Gabela é a única unidade hoteleira de referência na vila, apesar de existirem pequenas pensões espalhadas pela região.

Onde comer:

Além do restaurante do Hotel Gabela há alguns restaurantes e snack-bares.

Imperdível:

Uma visita à antiga fazenda da CADA

Características

  • Cozinha tradicional angolana
  • Rio
  • Vista bonita

Cozinhas

  • Angolana

Localização

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