O 10° Jantar Nómada by LNL: Bessangana Restaurantes

Bessangana, Ilha do Cabo, Luanda - Luanda
 27/07/2021

Por Hildérico Coutinho, escanção e responsável pelo Clube Nómada

Existe quem fique arrepiado quando se diz algo como “tive uma grande experiência no restaurante X ou um grande momento no restaurante Y”. Para eles, isso de “experiências” ou “momentos” são esquisitices desta nova geração com a mania!

Bom, eu fico contente por me chamarem “novo”, mas na verdade tenho pena de quem não consegue ultrapassar a ideia de que um restaurante é para servir boa comida, de preferência caseira (não se percebe muito bem porque saem de casa…) e mais nada. Tenho pena também que não tivessem a hipótese de estar neste jantar no Bessangana, onde o Chef Octávio Neto “criou” os tais momentos com pratos de grande inspiração e estórias que nos fizeram reviver a infância.

Creio que uma boa forma de vos mostrar o ambiente que se fez sentir passa por transcrever o post que a Alexandra Amorim Coutinho, mesmo não se lembrando de o ter feito ou se calhar por isso, fez no Facebook nessa mesma noite: “Há momentos em que nos sentimos deslumbrados. Quando um jantar nos surpreende justamente pela positiva é um desses momentos. Jantar pode ser só comer e pode ser só usufruir da comida com vinhos adequados. Mas pode ser também sobre contarmos histórias ou sobre a nossa identidade. Hoje foi sobre comer bem, com excelentes maridagens mas, também, sobre identidade. Excelente. Parabéns Bessangana. Parabéns Luanda NightLife. Parabéns Clube Nómada.”

A noite começou com momentos de grande inspiração que, segundo o Chef, se basearam nas ruas de Luanda. Se assim foi, isso só me faz gostar cada vez mais desta fantástica e subaproveitada cidade. Dada a diversidade de sabores e texturas prometidas para este couvert, que mais pareceu uma longa entrada e nos deixou um pouco perdidos, resolvi associar um branco Regional Minho elaborado com a casta Alvarinho, produzido numa região fora das que lhe permitiriam chamar Vinho Verde, sendo que, paradoxalmente, este é um vinho que podemos usar para explicar o que era o tradicional Vinho Verde, ligeiramente adamado mas com uma secura final potenciada pela mineralidade e um ligeiro piquinho que o torna mais vivo.

Terras de Felgueiras Alvarinho 2020 foi o que bebemos para acompanhar uma empada ornamentada com um curioso “caviar”, nada mais nada menos que as sementes do Kiabo, um tagliatelle de choco e com um molho tipo pesto que estava delicioso e magnificamente apresentado em gigantes conchas, uma banana pão e jinguba servido num pequenino e giríssimo grelhador, um atum fresco mal grelhado como deve ser sempre na companhia de broa e abacate e, para finalizar uns curiosos rissóis de rabo de boi com uma fantástica apresentação e que nos deixou a todos perplexos, que estavam aquelas brasas a fazer ali na mesa? a resposta era que nem tudo era carvão, alguns eram os rissóis negros como ele. Brilhante!











O momento seguinte teve como mote o famoso jogo da garrafinha, tendo sido presenteados todos os comensais com uma bola feita de meias e areia. Esta agradável surpresa predispôs quase toda a gente a atrever-se a comer o desafiante prato que incluía catatos (larvas para quem não conhece) couve com muamba de jinguba, peixe fumado e folhas. Foi muito giro verificar que muita gente se atreveu a, pela primeira vez, comer os famigerados bichos.



A presença de peixe fumado e da jinguba levaram-me logo para um vinho branco velho, onde as notas de mel, fumo, e frutas tropicais estivessem presentes. A escolha recaiu no Quinta Foz de Arouce 2016, que com os seus 5 anos passados na maioria em Angola, apresenta já uma acentuada evolução em termos de cor. É elaborado em exclusivo com a casta Cerceal, que na vizinha Bairrada costuma andar acompanhada pela Bical, pelo Arinto e pela Maria Gomes. Isso ajuda também a explicar a pouca acidez manifestada sendo que o prato não exigia mais e foi portanto uma aposta ganha nos equilíbrios que sempre procuramos entre a comida e a bebida.

O prato seguinte foi mais uma obra de arte em termos estéticos, porque os olhos também comem! Um filete de peixe-galo envolvido por couve que servia de cama a uma bela gema de ovo escalfada na perfeição e tendo por companhia umas quenelles de um puré verde que desconseguimos de descodificar. Ligou muito bem com outro vinho branco velho, este apesar de 2015 mostra-se menos evoluído e a sua evolução no copo mostrou que deveria ter sido decantado. Fica para a próxima botelha de MR Premium 2015 que beber. É um blend alentejano usando as castas Viognier, Alvarinho, Semillon, Arinto e Marsanne. Algumas destas castas são mesmo muito conhecidas pela sua notável capacidade de evoluir bem e devagar e não admira pois a sua evolução, sendo que no momento actual precisa mesmo de arejar por pelo menos meia hora para começar a mostrar o que vale. Experimentem e digam qualquer coisa.



Depois do peixe costuma vir a carne e foi o que aconteceu mais uma vez, apresentado com sendo Naco de Vitela, cogumelos grelhados, ervilhas e emulsão de queijo, mas que logo desconfiamos, pela textura e cor (demasiado passada se se tratasse de lombo) que seria a língua da vaca que estava na nossa boca e bem que soube. Para acompanhar foi escolhido o Monte da Ravasqueira Reserva da Família 2018, um vinho que teve 93 potnos da Wine Enthusiast e que os merece, na nossa opinião. O vinho está com taninos muito elegantes e suaves, muito frutado, notas mentoladas e com presença discreta da barrica. A harmonização poderia ter funcionado melhor se a carne fosse a esperada carne do lombo, mas a ousadia mereceu ainda assim o aplauso generalizado.



Para finalizar veio mais uma bela apresentação onde o bolo apareceu decorado de jinguba descascada parecendo ter sido colada uma a uma e tendo por companhia um gelado artesanal de abacate e um creme de ovos temperado com Jameson Black Barrel. A jinguba tostada leva-nos logo a pensar em tawnies e foi então o Porto Tawny Quinta do Vallado Reserva o escolhido para esta harmonização que se revelou m uito ajustada pois o vinho, apesar da sua juventude, já apresenta notas curiosas de frutos secos que casaram muito bem com o gelado temperado pela jinguba. Um final feliz para uma noite maravilhosa.



Obrigado a todos os que permitiram a realização deste evento.



NOTA: Estes artigos serão escritos a quatro mãos de forma a transmitirmos as várias sensibilidades colhidas durante o evento. Alguma incoerência pode pois aparecer na apreciação de algumas situações.

Sobre os Jantares Nómadas by LNL: Esta iniciativa é uma colaboração entre o LNL e o Clube Nómada, do conhecido escanção Hildérico Coutinho, onde saem todos a ganhar: o LNL escolhe o restaurante, o chef escolhe os pratos, o Clube Nómada escolhe os vinhos e você, leitor, usufrui! Como funciona: durante o jantar é servido um menu de degustação de 4 pratos; cada prato é harmonizado com um vinho diferente. Pelo caminho há sempre algumas supresas...

Características

  • Evento profissional
  • Eventos
  • Experiência Premium
  • Ocasiões especiais
  • Preferido do LNL
  • Vinho a copo

Cozinhas

  • Angolana

Localização

Comentários (1)

  • Francisca Gomes ManuelAgo 2021

    Parabéns pelo vosso trabalho admiro muito a vossa qualidade de trabalho ? continua a inovar más e mas

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