Sentadas Nómadas by LNL: A primeira experiência Restaurantes

Luanda
 10/08/2020
Esta ideia das sentadas tem andado a ganhar forma há já uns bons meses e esteve quase para arrancar, não fora o azar de aparecerem estas malditas políticas Covid e os seus confinamentos associados. O formato inicial passava por realizar sentadas em esplanadas de restaurantes ou na praia, em algum resort ou mesmo numa daquelas barraquinhas que adoramos. Queremos democratizar o consumo do vinho e mostrar-vos que é possível estarmos em locais híper-relaxantes, comendo pratos tradicionais angolanos e ainda assim podermos beber vinhos em bons copos, nas temperaturas adequadas e harmonizados com a comida que estiver a ser consumida.

Não foi nada disso que aconteceu nesta nossa primeira aventura, pois tivemos a sorte de um simpático Casal Nómada, Phillipe e Lorena Oliveira, se ter disponibilizado para nos receber em sua casa, com toda a parafernália necessária e um belo cenário junto à piscina de um azul refrescante e tranquilizante. Para respondermos ao desafio juntamos esforços e o Hildérico Coutinho, o Cláudio Silva e a Lorena Oliveira foram para a cozinha preparar algumas iguarias. Parece que não correu mal a jugar pelos comentários dos convivas. Claro que poderia ter corrido melhor, se tivéssemos um Chef habituado a cozinhar para uma dezena e meia de pessoas… Já agora! Se houver algum que se queria por à prova nestas coisas é só dizer que nós teremos todo o gosto em lhe proporcionar todo o material para se mostrar. Faríamos o esforço de provar as suas criações com abnegação e galhardia...

Passavam pouco mais de 10 minutos depois da hora combinada e já toda a gente se encontrava presente. Quem disse que os angolanos não respeitam horários?

Os que chegaram mais cedo tiveram oportunidade de irem apreciando o M.A.N Family Wines Sparkling Wine Chenin Blanc Brut, um vinho já apresentado anteriormente nas nossas newsletters e que funciona tão bem como welcome drink, graças a um perfil mais floral e frutado, uma mousse delicada e notas de acidez muito controladas.

Avisados os comensais de que não se admitiam reclamações pela demora do serviço arrancamos com um Caril de Choco e Couscous de Legumes, ambos elaborados pelo HC e ambos de forma não tradicional. O Couscous pecou por alguma secura, por excesso de massa. “Não é fácil cozinhar para tanta gente” foi a desculpa... O Choco pecou por alguma falta de intensidade do caril. Por medo de ficar salgado, usou-se demasiado iogurte ou pouca pasta de caril… Ainda assim estava suficientemente agradável para acompanhar os dois vinhos, sendo que a ligação com o espumante, não deslustrando também não dava origem a festejos. No entanto a ligação com o vinho branco M.A.N Sauvignon Blanc 2019 foi muito boa, com a exuberância do caril a casar muito bem com os aromas a maracujá e erva cortada do vinho, sendo que uma vívida acidez limpava a boca com um único gole deixando-a pronta para nova garfada.

O CS, com a sua manifesta relação de amor/ódio com os EUA não conseguiu resistir e foi buscar uma receita ao Tennessee, o Frango Frito à Moda de Nashville com Cornbread, uma espécie de broa de milho adocicada e mais leve. O frango é, já adivinharam, uma variante do que o KFC apresenta e estava igualmente crocante sim senhor. Alguns de nós sentiram falta de uma saladinha que refrescaria o prato. Alface e milho poderia ter sido uma boa opção.

Os vinhos servidos, ambos disponíveis na MAXI, funcionaram bem com o prato. O primeiro a ser servido foi um rosé de 2017 da Quita de S. Sebastião, que se apresentou com bons aromas, mas ligeiramente doces demais para a maioria, que preferem vinhos mais secos e frescos. Está no entanto bem desenhado para o mercado local. A preferência recaiu no vinho branco o Quinta de S. Sebastião Cercial 2015, um vinho de boutique de uma casta pouco habituada a aparecer só. Nascida no Douro com o nome de Cerceal Branco, perdeu o “e” e ganhou o “i” na sua migração para sul e ganhou grande preponderância na Bairrada onde costuma andar acompanhada pela Bical e Maria Gomes, esta última conhecida noutros lados por Fernão Pires. Foi com este nome bairradino (com o “i”) que se implantou no Tejo e originou este vinho untuoso, mineral, com notas de madeira bem integradas e pouca evolução cromática, mostrando que está aí para o que der e vier… É claramente um vinho para guarda, assim haja disponibilidade financeira, pois pode vir a dar um caso sério daqui a meia dúzia de anos.

O prato seguinte, com o HC outra vez nas lides, foi uma Barriga de Porco no Forno (onde esteve mais de 4 horas a 90ºC seguido de uns 30 minutos a 250ºC para tostar a pele) acompanhada de um original Arroz de Moiro, um prato inspirado nos arrozes malandros de sangue (cabidela) mas usando um enchido de sangue, conhecido por Moiro e originário da sua terra natal.

Este prato ligeiramente avinagrado funciona bem com tintos com elevada acidez, como são os vinhos verdes tintos, mas na quase impossibilidade de os encontrar com qualidade em Angola, recorremos a três tintos com um deles a conseguir uma bela harmonização. Para alguns foi uma pena que tivesse sido o terceiro, pois ou o prato estava realmente bom ou ainda estavam com fome e não conseguiram aguentar...

Começamos com um vinho alentejano, Alves Vieira Reserva 2015 que tinha um pouco de Alicante Bouschet, mas não o suficiente para fazer uma ligação perfeita. Um vinho extreme desta casta teria funcionado lindamente...

Deu no entanto para apreciar uma nova merca no mercado, desenvolvida em exclusivo para a Multiáfrica com o que os seus ideólogos pensam ser o perfil do consumidor angolano. Os seus criadores, Pedro Rodrigues e Catarina Vieira da Herdade do Rocim, têm já uma considerável ligação a este país e não admira pois, que na nossa opinião isso tenha sido conseguido, pois apresenta notas óbvias a baunilha, os taninos são suaves e o final de boca deixa um sabor a frutas negras doces.

O segundo veio do Douro, Castelo de Numão Reserva 2017 mais uma aposta recente da Multiáfrica, que apresenta um perfil similar, mas também a mostrar a força típica dos vinhos da região. Mais encorpado e com a madeira mais bem integrada tem um bouquet onde se notam bem as frutas negras mais ácidas originando pois um vinho com um final mais seco que o anterior. Gostamos mais mas isto é mesmo uma questão de gosto.

O terceiro, um bónus que a Multiáfrica fez questão de nos presentear, tratou-se do Kopke Reserva 2016 o mais austero e contido de todos e apesar de ser o que menor persistência apresentou foi o que melhor se ligou ao arroz. Os taninos do vinho são potentes e estão polidos dando a entender que a passagem por madeira foi bem conseguida. No entanto as notas da barrica não são muito evidentes, algo a que a estrutura dos vinhos durienses não é alheia. A acidez é boa e não incomoda ninguém e o sabor a fruta negra num final seco são muito agradáveis. Não nos admirou a qualidade do vinho pois sabemos que a casa Kopke, que recentemente se virou também para os vinhos tranquilos do Douro, tem muitos anos de boas práticas a fazer Vinho do Porto.

Para o final foi solicitada a intervenção dos anfitriões e em boa hora o fizemos, a LO resolveu preparar e depois misturar magistralmente um Bolo de Chocolate Negro Cremoso com uma Redução de Frutos Vermelhos e um Gelado de Iogurte com Frutos Silvestres.  Que delícia! Acho que na próxima terá de fazer mais de um prato...

Como companhia tínhamos mesmo de recorrer a um Vinho do Porto da classe dos Rubys. Apareceu assim um Porto Cálem LBV 2003 que se apresentou com uma evolução algo surpreendente. O depósito que apresentou era em quantidades similares às que costumamos encontrar num Vintage, não num LBV. Será que o ano 2003 que foi um dos melhores deste século terá algo a ver? Aconselhamos pois os que tiverem a sorte de o provar a colocar a garrafa de pé durante 1 ou 2 dias e servir com cuidado depois de refrescarem a garrafa, algo obrigatório quando falamos de vinhos fortificados.

Para acompanhar a conversa final e o charuto de alguns, veio ainda mais um bónus da Multiáfrica, um Porto Cálem Colheita 1990, que pertence ao outro grande grupo dos Vinhos do Porto, os Tawny. Este colheita, que dentro desta categoria são os que mais apreciamos, graças à enorme variação que podem apresentar dependendo do ano e do tempo que ficam a estagiar em barricas, sendo que no mínimo tem de estar lá 8 anos. Este esteve 18 anos antes de ser engarrafado e mais 12 na garrafa, que lhe dá pouca mas sempre dá mais alguma evolução. O resultado é um vinho de cor alourada, ligeiramente turva pela evolução em garrafa e a nossa falta de cuidado no manuseamento, com os aromas típicos a mel, frutos secos e passas. Um final doce e prazeroso para uma tarde memorável e a repetir...MUITAS VEZES!

Características

  • Evento profissional
  • Experiência Premium
  • Quintal
  • Vinho a copo

Cozinhas

Localização

Comentários (1)

  • Andrea SousaAgo 2020

    Só tenho pena de uma coisa... de não ter estado lá! Talvez numa próxima ocasião, quando a malfadada Covid assim o permitir. Saudações vinículas, Andréa Sousa

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